Quando o futuro distópico apenas revela o presente.

“Lá Em Cima Não Há Céu”, curta-metragem dirigido por Yan Araújo e Óscar Araújo, constrói uma distopia que não se apoia na grandiosidade do futuro, mas no reconhecimento imediato do presente. Ambientado em um mundo dominado por uma corporação que controla a saúde e o cotidiano das pessoas, o filme acompanha Nara, personagem vivida pela atriz Regina Albuquerque, em uma rotina exaustiva, monitorada e progressivamente desumanizada. O sistema oferece conforto e eficiência, mas cobra em troca a redução da vida a métricas, protocolos e obediência silenciosa.
O início do filme se dá por meio de uma propaganda, com “A mulher do mundo ideal”, interpretada pela atriz e cantora Gitana Pimentel, confundindo deliberadamente o espectador. O que parece um anúncio comum, com promessas de bem-estar, vitalidade e sucesso, revela-se parte da própria narrativa. A escolha funciona como comentário direto sobre a lógica contemporânea de comunicação, em que discursos publicitários moldam não apenas o consumo, mas a própria percepção do que é viver bem. A propaganda não introduz o filme, ela já é o filme, instaurando desde cedo a ambiguidade entre cuidado e controle.
À medida que a narrativa avança, a estética visual acompanha o esvaziamento da personagem. As cores iniciais perdem intensidade, o ambiente se torna frio e a atmosfera passa a operar como elemento de opressão. A fotografia e a iluminação criam um mundo que não acolhe, apenas regula. Essa construção visual não busca o espetáculo, mas a repetição, o cansaço, a sensação de ciclo contínuo que não se rompe.
A atuação de Regina Albuquerque sustenta essa lógica narrativa ao trabalhar o corpo como espaço de desgaste. A personagem não verbaliza grandes conflitos, mas os carrega fisicamente. O cansaço é progressivo, a respiração pesa, os gestos se tornam mecânicos. O espectador acompanha esse processo quase como um experimento, o que reforça a sensação de que Nara é menos uma cidadã e mais um objeto de observação, um “ratinho de laboratório”.
Um dos elementos centrais do filme está na comunicação entre o sistema e a personagem, mediada exclusivamente por números. Perguntas sobre como ela se sente são traduzidas em notas e índices, anulando qualquer possibilidade de expressão subjetiva. O filme insiste nesse recurso para evidenciar a violência simbólica da quantificação da vida, onde sentimentos, saúde e existência passam a ser avaliados apenas por dados. A tentativa frustrada da personagem de se expressar para além desses parâmetros revela o limite desse modelo de mundo.

O roteiro dialoga com referências conhecidas do audiovisual distópico, como “A substância”, “Blade Runner”, “Black Mirror” e “3%”. O curta parte de um universo que se pretende futurista, mas opera como espelho do agora. Produzido com recursos da Lei Paulo Gustavo, o filme foi realizado em quatro dias, com uma equipe numerosa e uso intensivo do espaço do estádio. A escolha da locação não funciona apenas como solução estética, mas como elemento narrativo, reforçando a escala do sistema frente à fragilidade do indivíduo. O processo de produção evidencia a capacidade de organização e execução do cinema independente local, sem que isso se traduza automaticamente em uma narrativa otimista sobre o futuro.
“Filmes como esse e diversos outros que estão sendo produzidos na cidade mostram a força do nosso cinema independente, que tem trilhado um caminho de relevância no audiovisual paraibano“, disse Yan Araújo, roteirista e diretor.

Desde a estreia no MAC, em 2025, o curta circulou por festivais nacionais e recebeu prêmios em categorias como filme, roteiro e atuação. Essa trajetória confirma a inserção do curta em um circuito de reconhecimento, mas o interesse maior do filme permanece em sua capacidade de provocar desconforto. O título não sugere transcendência nem redenção. O que existe é um mundo funcional, eficiente e profundamente vazio. Ao final, o curta não oferece soluções nem rupturas claras. O que permanece é a sensação de que a distopia apresentada não está distante nem deslocada no tempo. Ela já opera em pequenas camadas do cotidiano, disfarçada de cuidado, progresso e normalidade. O filme se encerra sem catarse, deixando no espectador a tarefa incômoda de reconhecer o quanto desse sistema já foi incorporado à vida real.
“Regina foi nossa atriz principal e se dedicou desde o primeiro momento ao projeto, se entregando de corpo e alma. É uma atriz de peso, que merece todo o reconhecimento. No geral, esse filme é um presente pra gente, trazendo o sci-fi nordestino com sotaque paraibano”, disse Yan.



Ficha Técnica:
Roteiro: Yan Araújo e Óscar Araújo
Direção: Yan Araújo e Óscar Araújo
Assistente de direção: Fabi Melo
Continuísta: Antônio Burity
Preparação de Elenco: Mayk Moura
Direção de Produção: Sérgio Almeida
Assistente de Produção: Iris Ribeiro
Estagiária de Produção: Jennyfer Lima
Produção Executiva: Marcelo Paes de Carvalho (Incartaz) Direção de Fotografia: Marcos Vinícius Cacho
Assistente de Fotografia: Diego Pontes Gaffer/ Elétrica: Gabriel Gaspar
Best Boy: Brenno Lucena
Direção de Arte: Samy Sah
Assistente de Arte: Walber Rodrigues Estagiária de Arte 1: Luyza Probst Estagiária de Arte 2: Letícia Oliveira Maquiagem: Mayk Moura
Som direto: Jonas Tadeu
Still / Making Of: Julio Alves
Montagem / Edição / Finalização: Marcos Cacho Mixagem de Som: Romero Coelho Acessibilidade: Caption.br
Elenco: Regina Albuquerque; Gitana Pimentel.



