CONVIDADA: DANDARA ARAÚJO
Abraçar os próprios demônios não é nada fácil. Diga-se de
passagem, reconhecê-los já não é uma das melhores coisas do
mundo, se é que você consegue enxergar o seu pior, abraçá-lo,
compreendê-lo e tomar um café como quem se agarra com a
solidão.
Algumas pessoas passam por essa vida sem sequer saber que
os tem. Ao menos, não assumem. Esses são os que costumam
esconder, minimizar ou tapear de alguma forma. Outros passam
anos e anos se escondendo atrás de religião, tentando encontrar
algum sentido além do que há, unicamente, porque cultivam medo
do que habita embaixo da carapuça.
Nem consigo julgar, vez ou outra também tenho receio do
mais íntimo de mim mesma. O melhor que faço é fugir pra não me
assustar e retomar quando me sinto preparada. Afinal, o
autoconhecimento não é um processo tão gentil como costumam
dizer por aí.
Do que conheço, falando de mim, sempre que dizem que sou
chata, complicada e difícil de lidar, rapidamente rebato com “ao
menos assumo”. Tá aí o xeque-mate. Não há mais o que falar. Na
síntese mais coerente, é um belo de um “faça-me o favor de olhar
para si mesmo e se conhecer no mesmo nível”.
Fico imaginando perguntar a um grupo de 10 pessoas quantas
delas se consideram egoístas. Na minha cabeça, a cena é nítida. 6
pessoas prontamente responderiam que não, essas pensariam nos
filhos ou em alguém da família, 2 ficariam na dúvida e diriam que
não apenas por desencargo de consciência, lembrando de alguma
ação de benevolência pura que custou vir a memória, enquanto as
outras 2 seriam as únicas que assumiriam o egoísmo em sua
totalidade, mesmo não o analisando como um todo.
Acredito mesmo que o egoísmo é o que nos move enquanto
sociedade. Em tudo o quanto “pecamos” ou agimos de má fé, esse é
o real agente que estará presente. Considero uma lógica bem
simples: o orgulho, o ciúme, a mentira, o desejo, a inveja e tantos
outras variações que surgirem… Na morfologia do sentir, haver e
existir, a motivação será a mesma: o nosso próprio nariz.
Essa reflexão me é recorrente, mas a necessidade de colocá-la
pra fora surgiu com uma ilustração da Anna Match. Estava
cascaviando o Pinterest e acabou surgindo pra mim: uma mulher,
nua, se abraçando em acolhimento e algumas mãos soltas tateando
seu corpo. Obrigada, Anna, eu precisava escrever. Não que fosse um
pensamento digno de crônica, mas acabou nascendo essa daqui.
E sendo franca até demais, com a licença da quebra do
doloroso período de hiato lexical, me assumindo como sou e sendo
como posso, vou mandar um belo de um foda-se a quem não
assume o próprio egoísmo. Quero mesmo é distância.
Com a palavra, Dandara.



