Nota de Rodapé

CONVIDADA: FABRÍNIA ALMEIDA

Dias atrás, passei boa parte de uma tarde tentando confirmar uma informação em um documento holandês que existe há tempo suficiente para que eu possa chamá-lo de ‘antigo’. Na maioria das vezes eu só tenho um nome, uma data de nascimento, o comentário de alguém. Tem horas que é tudo tão impreciso, que em breves omentos até eu duvido que exista ou que terei algum bom resultado nas minhas pesquisas. Há quem ache que é uma perda de tempo. Já li e ouvi muito a frase. Mas, gosto de pensar de outra forma. Tenho aprendido que uma vida toda cabe em poucas linhas. Linhas burocráticas, para ser mais precisa.

Um nome (não raras vezes: apenas as iniciais), sobrenomes, datas de nascimento, naturalidade, profissão e até somente a assinatura apressada e pouco legível de alguém. Cresci achando e acreditando que eu também seria apenas uma nota de rodapé muito negativa no curso do mundo. Uma nota de rodapé que, ‘se tivesse sorte, arrumaria alguém que aceitaria se casar comigo, e aí então minha vida ‘estaria resolvida’. Isso me foi dito por um professor, no ensino médio. Ele ainda completou que a minha sorte era não ser tão feia, pois no vestibular, nunca passaria. Tudo isso por causa da minha inabilidade com os números.

Eu sou de uma cidade do interior. Quando minha mãe decidiu que iria tentar conseguir uma vaga na ‘cidade maior’ ela fez pensando totalmente no meu desenvolvimento. Fui acolhida pela cidade, com quem tenho uma das minhas dívidas de gratidão. Mas, também ouvi que ‘deveria voltar para a minha terra’, que não me encaixava ali. Essas e outras passagens foram suficientes para me fazer duvidar da minha capacidade. Comecei a achar que ser a nota de rodapé era o destino negativo que me aguardava. Me ensinaram, na verdade, que eu deveria sempre estar naquele lugar. Que diziam ser ‘pouco importante’.

Certo dia eu resolvi que não poderia ser assim. Coloquei mais energia, e consegui contrariar as previsões extremamente preconceituosas que tinham feito. As ‘poucas linhas’ eram uma sentença. E eu queria ser ‘muitas linhas’. Ledo engano. As notas de rodapé, ao menos para mim, revelaram mundos e vidas inteiras. Passei a pesquisar um grupo de mulheres, especificamente, religiosas holandesas. Elas apareciam nas margens do assunto, nas notas de rodapé extremamente burocráticas que eu via nos documentos. Mas elas eram mais do que isso e me ensinaram que as notas são convites para ver e descobrir mundos inteiros.

Um dia eu comprei um livro de arte. O título, em português: Um Convite para ver. Maravilhoso, cheio de quadros do Museu de Arte Moderna dos estadunidenses. Mas, o título ficou na mente e tornou-se a explicação que eu nem sabia que precisava. ‘Um convite para ver’. É realmente assim que acontece quando eu pesquiso e aceito que nada é simples à primeira vista. É um convite que felizmente continua acontecendo, e que eu aceito sempre. Conheço sempre um destino maior, cidades, culturas, idiomas, falo com pessoas que eu nem tenho contato pessoalmente e que me dizem que nunca teriam ideia de que alguém iria procurá-las, achá-las para falar sobre determinados assuntos. Uma miríade de coisas prováveis e improváveis.

De conversar com alguém que eu achei num recorte de um jornal publicado 40 anos atrás, até acompanhar um retiro de padres na Bélgica (também fico confusa até hoje). ‘É uma moça. Do Brasil…’, me divirto sempre quando escuto pessoas falarem isso com surpresa. É como se tudo estivesse esperando que eu aceitasse o convite para ver e perguntasse ‘mas o que aconteceu aqui?’. Faço essa pergunta umas dez vezes por semana. Convites que não raro foram feitos por notas de rodapé. Por muito tempo, ouvi que para certas áreas era necessária a seriedade e a frieza. E alguém me falou que eu teria que lutar contra um ‘entrave’: o humanístico.

Outros, me disseram ‘mulher é mais sensível, você vai se comover e esquecer que o ponto disso deveria ser a crítica…’ Honestamente, nunca senti dificuldade entre ter que pensar com precisão e não abandonar a sensibilidade. É preciso sentir muito. Continuei a insistir nas mulheres que apareciam como notas de rodapé, registros de uma linha só. Fui descobrindo o que aparentemente parecia não existir, e do que estava quase condenado a desaparecer. Uma década da minha vida procurando todo o possível para que algumas delas fossem lembradas e que não ficassem morando para sempre apenas numa nota de rodapé da história de alguns municípios. ‘Mas foi fundado por fulano de tal’, exato. Mas antes dele também vieram mulheres, e isso não diminui o trabalho dele, coloca-o em igualdade, e ele gostaria de ter sido registrado assim.

E a sensibilidade foi muito importante no desenvolvimento das críticas e na construção da precisão necessária na abordagem das coisas. Mudei o rumo, e finalmente entendi um ponto muito importante. Quem aprende a ler com a devida atenção sabe: nas notas de rodapé, muitas e muitas vezes, contém um mundo inteiro, e também são elas que impedem que vários textos desmoronem.

Não é apenas estar nas margens, como fizeram que eu acreditasse por muito tempo. É sustentar a narrativa, provar que estivemos e estamos. Que estar numa nota de rodapé não é insignificante, é dizer o que o centro esquece ou não consegue dizer, é permanecer quando o destaque muda, é ser estrutura e escrever a parte da história que nunca foi pequena, só foi, talvez escrita numa letra menor.

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Uma resposta

  1. Fabrinía,
    Que texto magnífico. Ler suas palavras é perceber a força de uma mente sensível, inteligente e profundamente comprometida com a verdade das histórias humanas. Você transforma aquilo que muitos ignorariam as margens, as pequenas linhas, as notas discretas em um território cheio de vida, significado e memória.
    Há uma beleza imensa na forma como você revela que nada é realmente pequeno quando é olhado com atenção, sensibilidade e respeito pela história das pessoas. Seu texto não apenas narra uma trajetória, ele também resgata dignidade, amplia o olhar e nos lembra que muitas das estruturas que sustentam o mundo foram escritas justamente nessas “letras menores”.
    É impossível não se emocionar com a profundidade do seu pensamento e com a elegância da sua escrita. Você nos convida a ver mais, a escutar mais e a reconhecer que, muitas vezes, é nas margens que a história mais verdadeira continua viva. Que privilégio ler algo tão bonito e tão necessário.

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