
O regionalismo fantástico é um gênero literário brasileiro que surge do encontro entre duas tradições centrais da nossa história literária: o regionalismo, especialmente aquele consolidado a partir da década de 1930, e o fantástico de matriz europeia. Dessa confluência nasce uma literatura que se ambienta nos interiores do Brasil e incorpora o insólito, o maravilhoso e o sobrenatural como elementos constitutivos da narrativa. Não se trata de escapar da realidade, mas de ampliá-la a partir da cultura local, da oralidade, das crenças, da memória coletiva e da paisagem.
Embora presente há décadas em manifestações como o cordel nordestino e nas narrativas orais da cultura popular, o regionalismo fantástico apenas recentemente vem sendo reconhecido e nomeado como um gênero dotado de características próprias. Na literatura brasileira contemporânea, ele se afirma como um campo fértil de experimentação estética e também como instrumento crítico, ao tensionar a centralidade de modelos narrativos urbanos e sudestinos e reafirmar vozes historicamente marginalizadas.
Entre os principais nomes dessa nova geração está a escritora paraibana Jadna Alana. Autora de oito livros, duas vezes finalista do Prêmio Kindle de Literatura e vencedora do Prêmio Marília Arnaud, Jadna constrói uma obra que articula ficção, cultura popular e pesquisa acadêmica, consolidando o regionalismo fantástico como projeto estético, político e identitário.
Formada em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba e mestre em Estudos da Linguagem, Jadna escreve desde os dezoito anos, mas foi a partir da publicação de “Riacho do Jerimum” que sua relação com a escrita se transformou de forma definitiva. “Foi a partir da minha quarta obra que deixei de brincar de ser escritora e passei a encarar a escrita como um propósito”, afirma. O encontro com o regionalismo fantástico abriu, segundo ela, a possibilidade de construir algo novo, especialmente no campo da pesquisa literária. “Minha escrita passou a ser movida por um compromisso ideológico: pensar uma literatura decolonial, reconhecer minhas origens como motivo de orgulho e assumir a escrita como forma de legado.”

Hoje, a literatura atravessa integralmente sua rotina profissional. Jadna atua como editora de texto na ALCE, sua marca autoral, e também como editora do Selo Candeário, da editora Izyncor. “Minha rotina é inteiramente atravessada pelo trabalho com o texto”, explica. A escrita criativa acontece nos intervalos que ela consegue preservar, entre edição, pesquisa e leitura constante. “Entendo a leitura como parte indissociável do meu trabalho com a literatura”, afirma.
Se o trabalho com a linguagem estrutura o presente, é no território de origem que se encontram as raízes mais profundas de sua escrita. Nascida e criada em uma cidade pequena do interior da Paraíba, Jadna traz para a literatura a vivência sertaneja, a agricultura familiar, as tradições, os ritos e as crenças que moldaram seu cotidiano. “Minhas principais referências são a própria vivência”, diz. “Venho de uma família de pessoas não letradas, mas profundamente ligadas à cultura popular e à oralidade.”
Entre essas influências, a figura do avô ocupa o lugar central. “Meu avô era um exímio contador de histórias. Reconheço nele a origem da minha paixão pelo imaginário”, afirma. É dessa memória afetiva e territorial que nasce sua literatura. “Escrevo o que sou, o que vivi e o território de onde venho.”
Essa trajetória vem sendo reconhecida nacionalmente. Em 2022, Jadna foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura com “Se tu me quisesse”. Em 2025, retorna à disputa como finalista com “Barquinho de papel”, romance ambientado em uma cidade fictícia do interior da Bahia e também inscrito no campo do regionalismo fantástico. A obra já venceu o Prêmio Carolina Maria de Jesus e agora representa a Paraíba em uma disputa nacional que prevê publicação pela Editora Record. “Estar novamente entre os finalistas reafirma a continuidade do meu trabalho e a potência das narrativas que nascem dos interiores do Brasil”, afirma.
Além da produção literária, Jadna também atua na formação de leitores e escritores por meio de cursos, clubes de leitura e partilhas nas redes. Essa escolha nasce de uma experiência pessoal de transformação. “A literatura transformou a minha vida”, afirma. “Venho de uma família na qual sou a única mulher formada e com título de mestra. Não tenho dúvidas de que foi a arte que me permitiu romper um ciclo restrito à vivência doméstica.” Para ela, formar leitores é também um gesto de responsabilidade. “Se a literatura mudou a minha vida, acredito no seu poder de mudar outras.”

Apesar dos reconhecimentos, Jadna não esconde que ainda projeta novos horizontes. “Como escritora, ainda não me sinto plenamente realizada”, confessa. Um de seus maiores sonhos é ser publicada por uma grande casa editorial brasileira, como Companhia das Letras, Intrínseca ou Record. “Acredito que mais de dez anos de dedicação contínua à escrita, em algum momento, culminarão nesse encontro.”
Enquanto esse futuro se desenha, a autora retorna ao passado para reafirmar o presente. No dia 31 de janeiro, Jadna lança a edição física de “Se tu me quisesse” em Nova Palmeira, Paraíba, no CENEP, organização que teve papel decisivo em sua formação. “Retornar dez anos após o lançamento do meu primeiro livro é um gesto simbólico”, afirma. “Esse retorno me faz revisitar a trajetória percorrida e reconhecer quem me tornei.”
O CENEP, na figura de Nega Lourdes, foi responsável por despertar o hábito da leitura em Jadna ainda na infância, por meio de projetos realizados nas escolas da cidade. “Infelizmente, o CENEP sempre esteve à mercê de gestões políticas que pouco valorizam seu trabalho essencial para a arte e a cultura”, lamenta. Ainda assim, segue como espaço de resistência cultural. “Retorno para este lançamento, sobretudo, como forma de agradecimento. Eu sou fruto direto desse processo.”
Mais do que o lançamento de um livro, o encontro marca a reafirmação de uma literatura que nasce do interior, transforma a memória em imaginação e faz do fantástico uma ferramenta de permanência, resistência e invenção.






