Leve Três, Pague Dois: A Feira da Prata e do Rolo em Campina Grande 

COLABORADORES TOCAIA: Davi e Pedro – Alunos UEPB.

Domingo ainda nem clareou completamente quando as primeiras bancas começam a tomar forma na Prata. O cheiro de pastel se mistura ao de hortelã e coentro recém-chegados do interior, peixes e carne fresca são organizados de forma estratégica na bancada, mãos carregam caixas, sacos e histórias. Antes de ser um mercado, a feira já é uma conversa em andamento.

A Feira da Prata, segunda maior e uma das mais tradicionais de Campina Grande, existe há mais de meio século e atravessa diferentes fases da cidade sem perder sua centralidade na vida popular. Localizada em um dos bairros mais conhecidos da zona urbana, ela funciona todos os dias da semana, mas é aos domingos que assume sua forma mais intensa, compartilham muito mais do que mercadorias. Em torno dela, quase como uma extensão, cresce a Feira do Rolo. Um local de venda e trocas dos mais variados tipos de mercadorias, desde panela de pressão, perfumes até um bezerro. 

Segundo o Observatório de Campina Grande, as feiras campinenses estão ligadas à própria formação histórica da cidade e ao intenso fluxo de pessoas, produtos e experiências que marca seu cotidiano. Partindo dessa compreensão, esta reportagem volta o olhar para aquilo que normalmente passa despercebido: as conversas entre bancas, as relações de confiança construídas ao longo dos anos, as memórias compartilhadas e os pequenos códigos de convivência que sustentam a vida feirante.  A Feira da Prata e a Feira do Rolo funcionam como um espelho da cultura paraibana, um espaço composto por pratos típicos, produtos locais e histórias cativantes, além de revelar que a economia popular é sustentada por redes de puro companheirismo. Mais do que um espaço de comércio, a feira aparece aqui como um território de comunicação popular, onde histórias, objetos e experiências circulam continuamente entre feirantes, fregueses e frequentadores. 

Foi nesse contexto que surgiram as histórias dos personagens desta reportagem. Ainda de madrugada, quando muitas ruas de Campina Grande permaneciam silenciosas, Cláudio Sasakura Brandão, conhecido popularmente como ”índio” já organizava sua banca na Feira do Rolo. Há cerca de dez anos atuando no local, ele aprendeu o universo das feiras de troca acompanhando o pai em Recife, experiência que transformou a negociação em uma herança familiar. Enquanto separava peças de ventilador, ferramentas e pequenos eletrodomésticos, explicava que o Rolo é um espaço “apropriado para comprar, vender e trocar de tudo”, resumindo sua lógica em um ditado repetido entre os feirantes:  

“Quem faz a volta é o anzol”.  

A expressão sintetiza uma cultura em que a conversa, a habilidade de negociar e a confiança entre as pessoas valem tanto quanto o objeto colocado à venda.  

Poucos metros adiante, a trajetória de Fátima revelava outra face desse mesmo território. Depois de passar cerca de vinte anos trabalhando na Feira da Prata, ela havia retornado recentemente à Feira do Rolo, dividindo sua rotina entre o Rolo aos domingos e a Feira Central durante a semana. Vendendo produtos simples, muitas vezes de baixo valor, Fátima descrevia a feira como um lugar “chegado”, onde as pessoas se conhecem e o trabalho acaba se confundindo com a convivência. Ao contar que a renda das vendas ajuda a pagar o aluguel e sustentar sua vida cotidiana, sua fala deslocava o olhar sobre a feira: mais do que um mercado de objetos usados, ela aparecia como um espaço de resistência, autonomia e busca permanente por dignidade. 

Essa dimensão humana também se fez presente na conversa com Joyce, de 28 anos, feirante da Feira da Prata há cerca de dez anos. Vendendo rapadura, ela conta que sua relação com o espaço começou ainda na infância, acompanhando os pais comerciantes pelas bancas e corredores da feira, experiência que se transformou em uma tradição familiar que pretende transmitir futuramente aos filhos. Embora seja formada em Educação Física, escolheu permanecer no comércio popular, pois considera a Feira da Prata “o seu mundo”, um ambiente onde se sente à vontade e onde aprendeu sobre trabalho, convivência e relações humanas. Ao mesmo tempo em que valoriza esse legado, Joyce demonstra preocupação com o futuro da feira diante do desinteresse de muitos jovens em continuar a atividade comercial das famílias, mas acredita que o local permanecerá como um dos principais patrimônios culturais da cidade. 

Ouvir histórias de trabalhadores que acordam cedo para ganhar o seu sustento e passam a vida trabalhando para sobreviver nos faz refletir sobre a nossa sociedade, pois mostra que, enquanto muitos descartam os seus pertences sem pensar duas vezes, os feirantes provam que a nossa história ainda tem muito valor. Muito além do comércio hortifrúti ou da troca de produtos usados, esse ambiente é um reduto de sobrevivência e tradição. Dar voz a esses personagens é garantir que o futuro de Campina Grande continue vinculado à riqueza e à dignidade da sua cultura popular.

Posts relacionados

Compartilhe

WhatsApp
Telegram
X
Facebook
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *