COLABORADORES TOCAIA: Eduarda Aragão e Zeno Diniz – Alunos UEPB.

As vias do coração de Campina Grande conservam narrativas que não podem ser mais observadas, apenas recordadas. Sob o barulho incessante dos veículos, o andar apressado dos pedestres e as vitrines de lojas que agora fazem morada na paisagem, persiste a lembrança de um arco temporal em que a cidade acalmava seu ritmo para que pudesse se permitir sonhar. Ao pôr do sol e nascer do luar, as luzes artificiais contidas nas fachadas iluminavam mais ainda aquela cidade, as filas se expandiam ao longo das calçadas e a expectativa era inerente entre desconhecidos que, por algumas horas, dividiam o mesmo silêncio diante da tela. Quando o projetor era ligado, o mundo real dava pausa e tomava conta o magicismo; os telespectadores eram capazes de desbravar os mais vastos oceanos, explorar diferentes épocas e universos aparentemente infinitos.
Naquele específico instante, divergências não existiam, pouco importavam o trabalho que continham, a idade ou a condição social. Cada uma dessas pessoas compartilhava a mesma escuridão, prendia a respiração diante das cenas que eram mostradas e retornava às suas residências levando consigo narrativas que continuariam ecoando em si, nas mesas de jantar com os familiares e nas conversas entre vizinhos. A sessão chegava ao fim, mas o cinema permanecia vivo no imaginário campinense.
Se recordar é viver, revisitar a trajetória dos antigos ambientes cinematográficos é também trazer à tona parte de sua identidade. Como eternizou Rick Blaine, em Casablanca, “nós sempre teremos Paris”. Em Campina Grande, muitos diriam que sempre terão o Capitólio, o Babilônia, o São José, entre outros espaços riquíssimos historicamente.
As narrativas acerca desses espaços caminham lado a lado com a própria transformação da Rainha da Borborema. Impulsionada pelo ciclo do algodão, a cidade começou a ser vista como um importante polo econômico do interior nordestino e incorporou hábitos que simbolizavam o início da era moderna. Entre eles estava o cinema, uma criação que, de maneira veloz, transformou-se em prática cultural e ponto de encontro da população.
Antes da construção edificadora das grandes salas, as imagens em movimento chegavam de forma itinerante. Segundo o professor Helton Paulino, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o encantamento de imediato não estava propriamente nas obras, mas no próprio acontecimento. “As pessoas não iam tanto pelos filmes, mas pela atratividade de ver o evento cinema. Algo atrelado à curiosidade.”
O primeiro registro que se tem trata do Cine Brazil, inaugurado no terceiro dia do mês de março de 1909, que, após duas décadas com acréscimo de um ano, daria lugar à educação, com o Colégio Alfredo Dantas. O cinema, com nomeação de teor nacionalista, trouxe consigo, no ano seguinte, um companheiro ocupacional, o Cinema Popular, com o cunho de realizar o ato de divulgação de uma nova arte e trazendo a facilidade de acesso para pessoas de baixa renda. Embora ambos tenham funcionado por um curto período de tempo, essas iniciativas foram elementais para plantar a semente de um costume que atravessaria gerações e marcaria profundamente a vida cultural campinense. E, diante desse cenário, algo era perceptível: o cinema ainda estava engatinhando.
Em 1910, Campina Grande começou a mudar de compasso. Enquanto o comércio expandia seus caminhos e as “brigas políticas” redesenhavam os rumos da cidade, como explica o professor da UFCG, desse contexto nasceu uma crescente relação dos campinenses com a sétima arte. Antes de ocupar as telas, o cinema ocupou os olhos, os encontros e a memória de quem passou a reconhecer, naquelas histórias, um reflexo da própria cidade. Levou o encanto das imagens em movimento às camadas mais humildes da população, compartilhando o mesmo espírito acolhedor que consagraria o Cine Popular.
Na década seguinte, a expansão urbana trouxe novas salas. O Cine Theatro Apollo, apresentado à população em 1912, tornou-se ponto de encontro da elite. Já o Cine Fox, mais conhecido como Cine Pulga, abriu suas portas em 1918 e levou a experiência cinematográfica às camadas mais humildes da sociedade, compartilhando o mesmo espírito acolhedor do Cine Popular. Separados por menos de 100 metros, os dois contrastes conviviam juntos. Imagino que, se Charlie Chaplin tivesse vivido por aqui, talvez extraísse a metáfora perfeita para conceber o Vagabundo e o Milionário.

Em meados de 1934, ao compasso do musical “Cavadoras de Ouro”, as terras campinenses testemunharam a chegada daquele que se tornaria um de seus mais duradouros símbolos culturais: o Cine Theatro Capitólio. Erguendo-se imponente através de uma projeção idealizada derivada da mente de Mestre Abílio, o lugar contava com mil poltronas, arquitetura monumental e equipamentos que evidenciaram a chegada do inovador e da progressão econômica.
Capitólio, que em si carrega a simbologia de uma edificação majestosa, ultrapassa esse sentimento quando as pessoas o adentravam, pois integrar aquele espaço assemelhava-se a participar das luxuosas cerimônias de premiação dos dias atuais. As melhores roupas eram escolhidas, os cumprimentos preenchiam o saguão, e o espetáculo já se desenrolava entre os corredores. Diante da tela, os risos ecoavam como um só, e as emoções atravessavam centenas de corações, como se todos compartilhassem o mesmo pulsar.
O espaço não só contemplava ares cinematográficos. Suas paredes também reverberaram as vozes de artistas como Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto, acolhiam a intensidade das apresentações teatrais, difundiam o conhecimento por meio de palestras e testemunharam a solenidade dos encontros que reuniram autoridades como Assis Chateaubriand. Ali, arte, saber e poder entrelaçaram-se, transformando o Capitólio em um organismo vivo da cultura campinense.

Essa vocação é reafirmada pelo professor Bruno Gaudêncio, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ao destacar que esses locais extrapolavam a função de projetar filmes. “Nos anos 30 vão surgir os cinemas mais desenvolvidos, com uma infraestrutura maior, que não só eram cinemas, eram centros de cultura.”
Enquanto o Capitólio representava a grandiosidade arquitetônica e o prestígio da época, o Babilônia chegava de maneira sorrateira para invadir o imaginário da população. Como resume Magna Jane: “Foi ali que histórias de amor encontraram seus primeiros capítulos, amizades foram fortalecidas e famílias se reuniram para experimentar o lazer em meio ao seu cotidiano.”
Os olhares percorriam os cartazes que anunciavam as estreias, o aroma da pipoca recém-feita envolvia o ambiente e a empolgação crescia a cada instante. A experiência começava muito antes do primeiro fotograma, quando a imaginação já projetava histórias antes mesmo de a tela fazê-lo.

O contato com esses lugares é detalhado por meio das palavras ditadas pelas cordas vocais da entrevistada Michelle Jussara, cujo primeiro contato com uma sala de exibição aconteceu ainda na tenra idade, no Cine Capitólio, durante a exibição de Os Trapalhões na Serra Pelada. “Foi uma sensação incrível. Nunca tinha entrado em um cinema. Fiquei impressionada com aquela tela enorme. Era tudo muito diferente”, relembra nostalgicamente.
Anos depois, já em sua fase adulta, Michelle foi ao Cine Babilônia para assistir ao clássico Titanic. Ainda hoje, a emoção navega em si e se comove ao recordar “a hora em que o navio está afundando e os músicos tocavam sem parar”. Para o historiador da UEPB, esse sentimento sintetiza o verdadeiro legado deixado pelos antigos cinemas: “deixaram uma memória, uma lembrança, um legado para quem viveu naquele momento”.
Mas as recordações preservadas por Michelle não se encerram quando a tela escurece. “Naquela época não tinha shopping. A diversão era ir ao cinema e depois comer um baita dog vendido na Rua Treze de Maio”, trazendo a percepção de que se tratava de momentos incríveis, contemplados em cada etapa daquele ritual.
De forma paralela, esse movimento também alcançava os cinemas de bairros. Entre eles estavam o Cine Liberdade, o Cine Real, o Cine Avenida e o Cine Teatro São José. Criados em 1945, sob administração da Cinemas Reunidos S.A. e fazendo parte da logística de mercado da família Wanderley, o Cine Avenida e o Cine Teatro São José conseguiram se destacar diante dos outros, tornando-se faróis na cartografia sentimental de seus frequentadores.

Entre as décadas de 1940 e 1970, frequentar o cinema tornou-se um dos principais rituais de convivência em Campina Grande. Como resume o professor Helton Paulino, “entre os anos de 40, 50, 60 e 70, Campina Grande teve na sociabilidade o cinema cotidianamente”. O relato de Magna, caracterizado como uma profunda imersão, transparece um contato parecido com o de Jussara faz jus a essa inserção: “Fiquei encantada com o ambiente, o som e a quantidade de pessoas reunidas para viver a mesma história”.
Contudo, a fatídica história do Cidadão Kane não é apenas ficção. É realidade! Os cinemas de Campina, após grande sucesso, tiveram uma grande perda de importância. O que antes era uma oportunidade de “viver momentos inesquecíveis”, como afirma Magna Jane, virou salas vazias e desesperançosas. Primeiro, caem os cinemas que floresciam fora do centro, como o Avenida e o São José, em 1980 e 1983, respectivamente. Agora, os auditórios cinematográficos eram obrigados a dividir a audiência com as TVs, videocassetes e outras tecnologias.
Em meio às crises, o mundo das imagens em movimento tentou se reinventar. Como explicado pelo professor Paulino, nos anos 80, o Cinema Um e o Cinema Dois foram tentativas de recuperar o público. O primeiro com uma pegada mais intelectual, enquanto o segundo apelou para algo mais comercial. Não foi suficiente.
Até os gigantes caem. O Babilônia e o Capitólio passaram por momentos conturbados, apelando até mesmo para uma programação mais erótica, na tentativa de buscar um público mais cativo. Na virada do século, ambas as salas fecham, e o professor recorda a melancolia da última sessão do Babilônia, com “Ecos do Além”, que marcou o adeus definitivo de uma época.
O único cinema que perdurou na cidade durante o século XXI foi o Cine Multiplex, no Shopping Iguatemi, apostando em uma era moderna da engenharia que movia a nova forma de se produzir filmes. Hoje, o shopping virou o Shopping Partage, e o cinema começou a pertencer à rede Cinesercla.
O Cine Teatro São José, um dos poucos remanescentes da era passada, renasceu após sua restauração pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), com a realização de um alto investimento. Mas esse valor se torna irrisório diante da sua relevância.

O Cine São José continua integrando a paisagem urbana de Campina Grande como um símbolo da história do cinema local. Foto: Eduarda Aragão
Outro marco importante é a reconstrução do antigo Cine Capitólio, que passou a se chamar Capitólio da Educação. A mudança nominal não apaga sua trajetória, pelo contrário, reafirma seu valor como patrimônio histórico e demonstra que um edifício pode ganhar novos significados sem romper os laços que mantém com seu passado.
Essas iniciativas revelam que as antigas casas de projeções nunca deixaram de dialogar com a população. Continuam alimentando narrativas e fortalecendo o sentimento de pertencimento de diferentes gerações. Porque o verdadeiro legado desses locais nunca esteve apenas nos filmes que exibiram. Ele permanece nas pessoas e na cultura de uma cidade que aprendeu a reconhecer a si mesma.

